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EU, HOLOGRAMA

Christina Carvalho Pinto*

Anos atrás, no voo de Mumbai para Londres, retornando do encontro de líderes na sede mundial da Universidade Brahma Kumaris, eu refletia sobre o diálogo entre o presidente de uma grande empresa e Dadi Janki, líder maior da universidade, mulher genial que, ao deixar o Planeta, deixou por aqui um legado de rara sabedoria.


O presidente pergunta: “Se Deus existe, por que Ele permite que haja tanta desgraça em nosso Planeta?” E Dadi, sem pestanejar: “ O planeta que recebemos não tinha desgraça nenhuma. Pelo contrário, em todas as culturas existe a memória ancestral de tempos de paz, harmonia, felicidade e abundância; aquilo que algumas tradições chamam de Éden, outras de Paraíso, Nirvana, Shangri-la... O cenário externo é a manifestação física do cenário interno. Os pensamentos e sentimentos que hoje prevalecem nas mentes humanas construíram (ou destruíram) o mundo em que vivemos.”


Deixo a reflexão de lado e ligo o vídeo do avião. Entra, de imediato, a versão cinematográfica de uma das obras mais conhecidas da literatura: O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde. Acompanho, agora na tela do monitor, as imagens que já havia visualizado na imaginação, muitos anos atrás, quando li esse livro tão emblemático: o jovem lindo e seu retrato, pintado em óleo sobre tela, que expressa fisicamente, dia após dia, a dantesca deterioração da mente do personagem.

Pergunto-me quando e por quê a humanidade enveredou por esse descaminho, fazendo da própria História um mega espelho de Dorian Gray.


Dizem os registros que onze mil anos atrás a vida fluía de forma sustentável. O ser humano, que desde os tempos do nomadismo retirava da natureza apenas o necessário para viver, nessa época começou a se organizar em aldeias agrícolas. Nessas comunidades, que não passavam de mil habitantes, havia igualdade social – todos plantavam, todos colhiam, todos usufruiam. E o que garantia os alicerces dessa construção harmoniosa? A energia feminina que, por trazer em si o segredo dos ciclos, sempre entendeu os sinais da lua, das chuvas, das colheitas. Os aldeões mantinham um elo espiritual profundo com a Grande Mãe, a Terra. Por todos os cantos do planeta, da China à América do Sul, as Vênus pré-históricas, de formas fartas e ventre fértil, corporificam a força dos ritos xamânicos de então.


Nessa época o ser humano não provocava catástrofes ecológicas.


A esquizofrenia social começa seis mil anos atrás, com o aparecimento do Estado agrícola, quando pela primeira vez a humanidade instala, no coração social, a doença da separação.


Separa-se da comunidade uma pequena elite, que passa a acumular para si os frutos do trabalho da maioria.


Separa-se da natureza a cidade, agora cercada de muralhas.


Separa-se da espiritualidade o conceito de poder.


Separa-se do feminino a energia masculina, e assim ninguém mais pode ser pleno.

Teria surgido aí a idéia da mulher-objeto? Pois foi nesse momento que a relação homem-Terra, desde sempre uma relação sujeito-sujeito, descambou para o patamar de sujeito-objeto. A Natureza saiu do papel de Grande Mãe, divindade amiga e provedora, para o de servidora coisificada.


Estava desenhada uma civilização em que o verdadeiro ser se isolou da verdadeira vida. Brotava ali o homo demens na mente do homo sapiens.


Passam-se mais seis mil anos e lá estava eu com vinte seis anos, morando em São Paulo, quando fui tomada de uma saudade aguda de um ser com quem compartilhei, durante toda a infância, amor infinito e conexão ilimitada.


Falo da terra. Sim, essa que a gente pode pegar nas mãos, cheirar, molhar e fazer argila, semear e colher o pão. A saudade física e urgente da terra me levou, naquela época, a escrever um conto que chamei de Marcha-Ré. O homem no trem, voltando para sua raiz, observa a paisagem correndo pela janela, os pensamentos correndo junto. Ele tem sede, mas não é do passado nem da família nem dos antigos amores. Ele tem sede da terra; quer de volta a intimidade, quer tocá-la e senti-la, vermelha e úmida, pulsando outra vez na sua mão.


Ao longo dessas décadas, vivi na grande urbe outras pulsações intensas e apaixonantes, desafio e orgasmo povoando meus sonhos e, tantas vezes, meus pesadelos. À ameaça de asfixia, quero terra, árvore, flor, bicho, mato, rio, montanha, mar, vento, chuva e sol. Sou tudo isso e tudo isso me é; como um filme holográfico, que, quando cortado em pedaços – ainda que mil pedaços - mantém a imagem inteira em cada uma das partes.


“Trago em mim todos os sonhos do mundo”. A poesia quântica de Fernando Pessoa ecoou pelo Planeta quase um século antes da produção do vídeo Powers of Ten (Potência de Dez). Ali, a partir de um casal num piquenique, o recuo da câmera nos revela o parque, a cidade, o país, o continente, o planeta, a galáxia, o cosmos. Em seguida, num movimento contrário, vamos do cosmos ao parque, até mergulhar no núcleo de uma célula do homem que está no piquenique. E aí, no âmago da célula, a imagem das galáxias se repete, tudo carimbo do carimbo, tudo a mesma fascinante vibração. Assim na Terra como no Céu.


Em que momento, ó Deus-Deusa, nos desconectamos de nós, de todos, do todo?

Nos últimos anos venho buscando compreender com mais clareza a essência da liderança. Num cenário socioeconômico em que o dinheiro virou símbolo máximo de poder, os endinheirados são expostos – na sociedade e na mídia – como líderes. Abundância é vida, portanto saudemos a riqueza. A distorção é que ao redor do dinheiro desenvolveu-se um círculo vicioso de grande pobreza mental e espiritual, em que o conceito de liderança passou a ser confundido com o acúmulo de poder material: conta bancária, cargos, bens.


Num segundo círculo (ou circo?) surge uma outra percepção patológica de liderança, criada pela mídia ao redor das celebridades, cujas imagens, modas, gestos e palavras são devorados e repetidos pelas audiências sedentas de reconhecimento.


Como profissional apaixonada pelo mundo da comunicação, aprendi que a mídia é um espelho que reflete a audiência que reflete a mídia que reflete a audiência que reflete a mídia.


Hoje todos somos mídia e audiência; e grande parte dos conteúdos espelha a sombra humana, num jogo vampiresco de nutrido e nutridor.


Ao jogar com a sombra, estimulamos o não-ser, pois a sombra não tem existência alguma, é apenas a ausência de luz.


A descoberta, anos atrás, do grau de dormência com que se desenha a trajetória de grandes talentos do meu setor, me despertou aos chacoalhões para a urgência de buscar, no mundo inteiro, talentos ensolarados, que estivessem repensando seu papel numa direção mais luminosa.


Encontrei, tanto no Brasil como em todo o Planeta, um grupo evolucionário de profissionais reunidos por uma mulher de grande talento, que liderou áreas decisivas numa das mais importantes redes de TV americana: Judy Rodgers, que em 1999 reuniu colegas, produtores e jornalistas para conversar sobre os impactos da mídia nos seres humanos, esses que tão vulgarmente chamamos de consumidores. Nascia o maior diálogo planetário para uma mídia mais construtiva, o Images and Voices of Hope, que chegou ao Brasil como Imagens e Vozes de Esperança (ive.org.br). O IVE, para o qual tenho o prazer de contribuir de múltiplas formas, teve um papel decisivo no redirecionamento de toda a minha trajetória em nível nacional e internacional. Foi inspirada pelo IVE que somei às minhas atividades a criação e produção de plataformas multimídia, da qual o primeiro grande projeto foi o Mercado Ético - uma gigantesca plataforma que durante oito anos disponibilizou inovação e ferramentas voltadas à sustentabilidade.


Mercado Ético nasceu nos Estados Unidos pelas mãos da genial economista evolucionária Hazel Henderson, que lidera duas plataformas via internet: ethicalmarkets.com e ethicalmarkets.tv.


A ligação com Hazel Henderson, com o IVE e a Brahma Kumaris abriram-me uma imensa e privilegiada network global, de onde surgiram pontes para o relacionamento com grupos especialíssimos. Em poucos anos, criamos, produzimos e exibimos mais de 300 programas de TV, centenas de milhares de páginas na internet e um sem-número de boletins para a CBN.


Lançamos o programa de TV Novos Tempos, que levou ao ar mais de uma centena de episódios voltados a estimular as audiências na direção de novos pensares, descobertas, tendências, estilos de vida, investimentos e outras atividades antenadas com um novo mundo.


No âmbito da propaganda e das múltiplas disciplinas ligadas ao setor de comunicações, sempre entendemos liderança como uma poderosa somatória do poder das idéias com o poder da consciência. Sendo assim, o Grupo Full Jazz, que fundei em 1996, durante as mais de duas décadas de sua intensa atividade destacou-se pelo posicionamento corajoso e transparente, voltado à construção de marcas sustentáveis, claramente contrário ao consumismo e às marcas de produtos que coloquem em risco a saúde e a vida (álcool, tabaco, armas e outros).

Em conjunto com um fascinante grupo de líderes empresariais transformadores, cofundei a iniciativa SHIFT – Agentes Transformadores, para disseminar e inspirar a atuação de lideranças que fazem a vida valer mais a pena.


Vale a pena engrossar as fileiras dos líderes dos Novos Tempos: gente, empresas e organizações que seguem ao largo das patologias políticas e socioeconômicas, a passos cada vez mais rápidos.


Eles jamais se desconectam de si, do outro, de Gaia, da Grande Luz. Conexão é a chave com a qual acessam suas fontes interiores de autoridade e poder.

Em contato com eles, descobrimos nossas próprias chaves e libertamos todas as nossas potencialidades.


Os líderes dos Novos Tempos se chamam Maria, Janki, Satish, Judy, Sara, Fu-Hau, João, Gunther, Ednéia, Renan, Victoire, Diva...


De suas mentes saudáveis e espíritos amorosos, surge na tela da História um novo retrato da humanidade, holograma radiante e indivisível que inclui todas as formas de vida e que, numa única pincelada, resgata a beleza original dos Dorians Gray.

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