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O Futuro do Streaming

Atualizado: Jun 18

por Sérgio Domanico


Ótimo Conteúdo não é o único fator para liderar esse mercado

Nos últimos meses muitas pessoas com quem tenho conversado me fazem a pergunta de 1 Milhão de Dólares: “Qual o futuro do Streaming?”. Duvido que alguém tenha hoje essa resposta, mas como trabalhei em 4 dos 5 maiores estúdios de Hollywood e lancei o serviço de streaming Fox+ no Brasil, me sinto tentado a opinar.

É consenso que dificilmente haverá espaço para muitos players nesse mercado, já que o modelo de negócios dos estúdios está baseado em um pagamento de assinatura mensal, e consumidores tem muitas contas para pagar todo mês com itens de Entretenimento além de Filmes e Séries como Música, Games e Livros.


Também escuto que muitas pessoas irão concentrar seu rico dinheiro na assinatura de Netflix e Disney, baseado no conteúdo produzido até hoje, e que, portanto, eles serão os grandes vencedores dessa corrida ao pote de ouro do streaming.


Mas focar somente em conteúdo nos dá uma reposta relativa para a grande pergunta. Precisamos olhar para os outros fatores que aliado ao Conteúdo formam os pilares dessa indústria: Tecnologia, Investimento e Distribuição.

Se olharmos primeiro para a referência do mercado, o que fez da Netflix a grande vencedora até agora? Uma combinação explosiva de ótimo conteúdo com uma tecnologia de ponta que faz com que o consumidor tenha sempre uma grande experiência e eles tenham uma base de dados fantástica que permite identificar hábitos e preferências dos seus consumidores em escala global.


Mas nem tudo são flores para os líderes: seus acionistas não vislumbram lucro a médio prazo, já que a empresa continuará investindo cerca US$ 20 Bilhões por ano na produção e aquisição de filmes e séries, para que seus consumidores nunca pensem em deixar pagar sua mensalidade.


Ora, se uma companhia dá pouco lucro e aumenta muito seus custos, seu endividamento aumenta. Com a possibilidade de perder algumas séries e filmes de grande audiência de seu catálogo para seus donos originais, precisará investir ainda mais em produção de conteúdo de alta qualidade, e a conta ficará difícil de fechar.


E a Disney? A empresa tem se destacado nos últimos anos por produzir os maiores Blockbusters do cinema, seu pipeline de filmes continua muito forte e suas franquias adoradas pelos fãs permitem o desenvolvimento de uma infinidade de séries e filmes, garantindo receitas futuras.


Ela também poderá escolher se irá lançar seus filmes nos cinemas ou no streaming para manter seus assinantes cativos, e se a isso juntarmos as produções de Fox e ESPN temos uma programação de qualidade para agradar um público amplo. O combo desses conteúdos e sua força global de marca devem ser suas maiores fortalezas.


Mas a corporação tem 2 grandes problemas para resolver:

1. O alto endividamento após ter que pagar um sobrepreço pela FOX, o que poderá fazer com que acionistas pressionem o CEO Bob Iger para diminuir custos e investimentos, afetar sua produção de novos conteúdos e até mesmo fazer com que tenha que distribuir seus produtos para os concorrentes para fazer caixa.

2. A empresa ainda não entrou no mercado de Streaming, e não se sabe que nível de tecnologia será empregado no seu serviço. Todos sabem que o início da implantação do serviço pode gerar muitas dores de cabeça e reclamações de consumidores pelo mundo (lembrem de HBOGo e Game of Thrones).

E os outros estúdios, que nunca fizeram investimentos nas suas marcas-mãe e agora terão que investir dinheiro para vender diretamente ao consumidor?


A AT&T, dona do conteúdo da Warner Media (filmes da Warner e programação da Warner, CNN, TNT, Cartoon e Esporte Interativo), e que tem aquele que parece ser o leque mais amplo de programação, sofre também com um endividamento gigantesco de US$ 180 Bilhões após a compra da Warner e DirecTV.


Sua tecnologia também é uma incógnita, já que seu único serviço de Streaming, o HBOGo, teve uma performance ruim quando foi exigido durante a última temporada de Game of Thrones.


Não se pode ignorar uma companhia dona de Marcas como Harry Potter, DC Comics, Cartoon Network, Big Bang Theory e Supernatural e licença de campeonatos com a Champions League, mas com essa dívida pode ser que tenham que se desfazer das suas maiores franquias para fazer caixa.

A Comcast - dona da Universal, Dreamworks e NBC - apesar de seu ótimo conteúdo e seus Parques para sustentar as franquias e seu negócio a longo prazo, parece estar entrando muito tarde na guerra. Além de sua tecnologia ser uma incógnita, também sofre com o enorme endividamento após a compra da SKY na Europa.

A Viacom – dona da Paramount e CBS, e que chegou a lançar os primeiros filmes da Marvel e Dreamworks - também não parece ser uma das protagonistas desse mercado no futuro. A empresa se perdeu durante a gestão anterior de Philippe Dauman, que preferiu colocar o dinheiro da empresa na recompra de ações para inflar seus ganhos ao invés de investir em conteúdo e aquisições.

No mercado local não podemos esquecer da Globoplay, serviço da maior empresa de TV do país, que possui uma penetração de mais de 90% nos lares brasileiros e conhece seu target como ninguém. As duas questões-chaves aqui são: Será que consumidores pagarão uma mensalidade para assistir um conteúdo que sempre tiveram de graça e, como competir em investimento e tecnologia com players gigantes e de escala globais?

Mas talvez a maior ameaça ao domínio do mercado por Netflix e Disney venha justamente de empresas pouco conhecidas pela produção de conteúdo e muito pelo seu desenvolvimento tecnológico de ponta: Amazon e Apple.


A Amazon tem uma presença fortíssima nos EUA e mais 18 importantes mercados pelo mundo como UK e Japão, e graças ao seu serviço Prime que dá direito a assinatura do Prime Vídeo, já possui mais de 100 milhões de assinantes.

Sua tecnologia de ponta tanto para o streaming, como áreas distintas como varejo, cloud, assistente de voz e inteligência artificial, pode fazer com que rapidamente desenvolva e adquira conteúdos sob demanda para seu público. No último Emmy já levou prêmios principais, mas ainda não teve nenhum sucesso de alcance Global que levasse seu serviço a um outro patamar.


A empresa tem um endividamento até que grande, mas encontrou o caminho da lucratividade recentemente e dinheiro parece não ser um problema para o time de Jeff Bezos.


E finalmente a Apple, que estreia seu serviço de streaming agora em novembro com grandes estrelas e produtores de Hollywood. O conteúdo mostrado na última conferência foi apenas ok, mas é importante lembrar que a empresa liderada por Tim Cook vendeu quase 1 Bilhão de Iphones nos últimos 5 anos para um público que está acostumado a pagar mais por qualidade. Para se ter uma ideia, aproximadamente 80% do lucro da venda de celulares no mundo fica com a Apple e com o advento do 5G, os telefones ganharão ainda mais importância para visualizar o conteúdo. A Apple sabe promover muito bem seus serviços e, nos EUA já é líder no mercado de streaming de música superando o Spotify.


Apesar da empresa focar seu investimento em tecnologia para melhorar o hardware - ao contrário de Google e Amazon que que focam no software - não podemos duvidar de alguém que tem mais de US$ 200 Bilhões (!!!) em caixa, prontinhos para serem investidos em conteúdo e aquisições.

Isso tudo sem falar na hipótese de Facebook e Google também decidirem entrar no jogo com todo seu capital, tecnologia e incrível banco de dados com informações detalhadas sobre consumo de seus usuários.

Do meu lado acredito que as empresas com melhor tecnologia e dinheiro para investir irão prevalecer, pois poderão comprar o conteúdo das outras empresas e saberão identificar o que os consumidores querem, o que me faz apostar na Apple e Amazon no longo prazo.

O fato é que, com a estreia dos serviços da Apple e Disney em 1º de Novembro, veremos as estruturas do mercado de Entretenimento se movendo em novas direções e impactando consumidores. Assim como os grandes filmes de Hollywood, estaremos assistindo a uma história que deixará heróis e vilões pelo caminho, com grandes reviravoltas, e cuja desfecho vale muito mais que 1 Milhão de Dólares.

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